Sambódromo às telas de cinema

Carolina Maria de Jesus: do Sambódromo às telas de cinema

Um dos nomes mais celebrados da literatura brasileira será homenageada pela Unidos da Tijuca e ganha filme inspirado no livro 'Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada'


Carolina Maria de Jesus, uma das principais escritoras brasileiras, será homenageada em dose dupla ao longo de 2026: com o longa ‘Carolina – Quarto de Despejo’, que tem previsão de estreia para o segundo semestre, e com o enredo “Carolina Maria de Jesus", da Unidos da Tijuca, que vai ocupar a Marquês de Sapucaí durante o Carnaval do Rio de Janeiro. Mineira, apelidada de Bitita, ela ganhou fama mundial em 1960, com a publicação de seu livro ‘Quarto de despejo: Diário de uma Favelada, em que narra com autenticidade e força poética a vida na favela do Canindé, em São Paulo.

Maria Gal, protagonista do filme ‘Carolina: Quarto de Despejo’, marcou presença no Baile da Vogue, neste sábado, no Rio de Janeiro. A atriz, que interpreta Carolina no longa e que vai atravessar o Sambódromo como escritora com a Unidos da Tijuca, escolheu um vestido feito exclusivamente para o evento e que é estampado com matérias sobre Carolina. Assinado pela estilista Agatha Lacerda, a roupa reforça a relevância e importância da escritora no cenário cultural.

Com apenas dois anos de educação formal, a autora vendeu mais de três milhões de exemplares, teve sua obra traduzida para 14 idiomas e se tornou a primeira escritora negra brasileira a alcançar reconhecimento internacional.

Do set ao Sambódromo

A Unidos da Tijuca vai contar a história de Carolina Maria de Jesus no Sambódromo este ano. Com o desfile no dia 16 de fevereiro, a escola é a quarta a entrar na avenida e vai passar pelas diferentes fases da história da escritora. Maria Gal será destaque na abertura do desfile, interpretando a própria Carolina, com o mesmo figurino que usou durante as filmagens do longa. A atriz vai atravessar o Sambódromo ao lado do presidente da escola Fernando Horta, que estará caracterizado como Dr. Eurípedes Barsanulfo, médico espírita, que profetizou que Carolina seria poetisa quando ela tinha apenas 4 anos.

“O convite para fazer parte do desfile começou através da Fernanda Felisberto, historiadora que contribui com a Unidos da Tijuca. Ela sabia que eu estava com o projeto do filme e me apresentou aos integrantes da escola, e foi amor à primeira vista”, brinca Maria Gal. Ela explica que estava fora do país quando soube que o enredo sobre a vida de Carolina seria anunciado como a escolha da escola, mas a sua data de volta coincidia com a véspera deste evento, então, no final, conseguiu estar presente e viu de perto a euforia dos componentes com a decisão.  

O enredo intitulado ‘Carolina Maria de Jesus’ é dividido em cinco capítulos, que correspondem à infância, ao começo da juventude e vida adulta, à mudança para São Paulo e o baque ao se ver marginalizada na Favela do Canindé, ao dia a dia e os registros escritos em seus diários e à força da sua imagem retinta que apontou para outros horizontes. O samba-enredo oficial é de autoria de Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Leopiane, Telmo Augusto, Gigi da Estiva e Juca. O carnavalesco responsável é Edson Pereira, com consultoria de Fernanda Felisberto e pesquisa de enredo de Gabriel Melo.

Sobre o filme ‘Carolina – Quarto de Despejo’ - Título provisório 

Dirigido por Jeferson De, com roteiro de Maíra Oliveira e produção de Clélia Bessa, o longa é uma adaptação do livro ‘Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada’ e explora aspectos menos conhecidos da autora: o afeto, os desejos, a vaidade, a maternidade e sua consciência política. A narrativa utiliza trechos de seus diários como base de uma trama mais complexa. Não se trata de biografia. O recorte vai do momento da escrita do livro até sua publicação.

Protagonizado por Maria Gal, que dá vida a Carolina Maria de Jesus, a produção conta ainda com Raphael Logam, Clayton Nascimento, Liza Del Dala, Carla Cristina Cardoso, Ju Colombo, Caio Manhente, Jack Berraquero, Fabio Assunção, Alan Rocha, Thawan Lucas e grande elenco. O filme é uma produção da Move Maria, Raccord Produções e Buda Filmes, com coprodução da Globo Filmes e distribuição da Elo Studios.

As gravações aconteceram no Rio de Janeiro, em novembro e dezembro de 2025 em locações como na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), no bairro do Recreio dos Bandeirantes, e nos Estúdios Quanta Rio de Janeiro, onde a equipe de arte, liderada por Billy Castilho, reproduziu a Favela do Canindé dos anos 1950 em um cenário de mais de 400m². Além do minucioso trabalho de arte, o cenário também contou com dois painéis de led com 12x5cm e 4x3cm, que estamparam ora o horizonte de São Paulo, ora uma outra perspectiva da favela do Canindé e ajudaram a dar profundidade e ainda mais realismo ao cenário. Juntos, a favela e os telões de LED ocuparam mais de 700m².

O início:

Em 2014 Maria Gal comprou os direitos do livro ‘Quarto de despejo: Diário de uma Favelada’ e, desde então, se aproximou de Vera Eunice, filha da escritora, com o desejo de fazer outros projetos sobre Carolina. Em 2019, Gal e Clélia Bessa, da Raccord Filmes, se encontraram e decidiram começar a produzir o filme. O primeiro nome que veio à cabeça de Clélia, para dirigir o filme foi Jeferson De, profissional que já tinha uma história com a escritora e que aceitou de primeira embarcar no projeto.

Maria Gal e Carolina Maria de Jesus

Muito antes de adquirir os direitos do livro, Maria Gal já se aprofundava na vida da escritora. Em 2007 ela interpretou Carolina no teatro e, a partir de então, surgiu a vontade de ver a história dela no cinema. “Conforme os anos passam, essa obra se torna mais atual. A Carolina falava de segurança alimentar, protagonismo feminino e negro, saneamento básico, maternidade solo, violência contra a mulher. Ela escreveu para gente de hoje”, afirma.

Para o papel no cinema, Gal passou por diversas mudanças. Os cabelos foram cortados e, segundo a atriz, contam aquilo que poucas palavras conseguem alcançar. “Quando eu aceito transformar meu cabelo pela história de Carolina, não estou apenas mudando o visual, estou abrindo espaço para acessar uma verdade que vai além da minha. Estou entrando no território dessa mulher gigante, que ainda hoje é uma das autoras mais importantes da literatura mundial. Carolina não é só um papel, ela é uma força literária que atravessou séculos, fronteiras e desigualdades, escrevendo de um lugar de silêncio imposto e, mesmo assim, fazendo ecoar a própria voz para o mundo inteiro”, explica Gal. Ainda como parte da composição da personagem, a atriz passou por um grande processo de emagrecimento, chegando a perder mais de 11 quilos e iniciou sua preparação como atriz há um ano, passando por profissionais do Brasil e dos EUA.

 

Jeferson De e Carolina Maria de Jesus

A história de Jeferson e Carolina começa muito antes deste longa. O diretor já havia feito dois curtas que envolviam o personagem Carolina de Jesus. O primeiro foi lançado em 2001, com Ruth de Souza no papel da escritora e, em 2003, ele dirigiu a premiado ‘Carolina’, que teve Zezé Motta no papel principal. A produção teve grande destaque no Festival de Cinema de Gramado, e venceu os prêmios de Melhor Curta-Metragem e o Prêmio da Crítica. Em 2004, a produção também recebeu o prêmio do Festival É Tudo Verdade e, no mesmo ano, a Cinemateca Brasileira, em parceria com o Museu Afro, realizou uma sessão especial de ‘Carolina’ curta para homenagear os 110 anos da escritora.

‘Eu já estava muito feliz com a repercussão das minhas produções sobre a Carolina, acho que, principalmente, o segunda curta ajudou a dar ainda mais visibilidade ao nome desta figura tão importante para a literatura brasileira. Até que, mais de 20 anos depois, a Clélia me faz um convite irrecusável para encontrar com essa grande amiga Carolina Maria de Jesus”, celebra Jeferson.

Participações especiais e visitas ao set

A adaptação cinematográfica de um dos livros mais importantes da literatura brasileira contou com participações muito especiais. Vera Eunice, filha de Carolina Maria de Jesus, atuou ao lado de Maria Gal e de Laura Vick, que interpretou Vera criança. Em um dia marcante, elenco e equipe se emocionaram ao ouvir as palavras de Vera e vê-la relembrando sua infância ao lado de sua mãe. Em outro momento emocionante, as escritoras Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz e Fernanda Felisberto participaram de uma cena que faz referência ao premiado ‘Central do Brasil’ (1998), quando Dora (Fernanda Montenegro) cobra para redigir cartas para pessoas analfabetas que desejam se comunicar com familiares distantes. No filme atual, Carolina preenche as fichas de despejo dos moradores da favela do Canindé, e as escritoras representam mulheres da comunidade que pedem sua ajuda.

Enquanto rodavam o filme, a equipe também recebeu visitas no set. Lázaro Ramos e o diretor musical Jarbas Bittencourt estiveram presentes no início dos trabalhos. A atriz Glória Pires também marcou presença nas gravações, assim como a cineasta Rosane Svartman, produtora associada do filme. 

Durante toda a preparação e filmagem, a equipe manteve, como forma de homenagem, um altar com as fotos de Carolina Maria de Jesus e de Lucas Colombo, filho da atriz Ju Colombo, que faleceu de mal súbito nos EUA em abril deste ano.

Carolina e o mundo da moda

Além de ser conhecida internacionalmente como escritora, Carolina também é vista, atualmente, como um ícone de estilo e sustentabilidade, influenciando o mundo da moda através de sua estética de sobrevivência e autoafirmação. Ela citou: “Agora que vendi mais de 15 mil livros na Tchecoslováquia poderei me vestir com esse tal de Dior”. 

Muito antes da sustentabilidade e do upcycling serem tendência no universo da moda, Carolina já os colocava em prática. Como catadora, ela ressignificava materiais, incluindo roupas e objetos descartados, dando a eles novo uso e significado. Suas vestimentas também eram um ato de resistência e, mesmo vivendo em condições precárias, ela cuidava da aparência, utilizando a moda como um ato de dignidade contra a invisibilidade imposta pela pobreza.

Fotos de arquivo e registros publicados dão conta da relação de Carolina com estilistas e sua preocupação e interesse em se vestir de acordo com as ocasiões. Vale lembrar uma imagem que repercutiu bastante na época e mostra Carolina em frente a um avião da AirFrance, pronta para embarcar para o Uruguai para lançar seu livro, com  com um look de luxo com pérolas.  Ela era vaidosa, gostava muito de roupas elegantes e do cabelo à mostra, crespo e natural, elaborando penteados que comportavam adornos diversos, ampliando o uso dos lenços, parte de sua estética fartamente veiculada, como um de suas fotos mais conhecidas.

Em 2021, Carolina foi tema central de uma exposição no IMS Paulista, em São Paulo, e teve 15 núcleos temáticos com aproximadamente 300 itens entre fotografias, cartas, matérias de imprensa e vídeos, muitos deles desconhecidos do grande público. A mostra dedicou um olhar especial para as experiências de Carolina com a costura, por exemplo, quando confeccionou uma fantasia para usar no carnaval de 1963. Em fotos expostas, foi possível ver sua elegância ao misturar estampas, pérolas e adornos que completavam o elegante visual.

Carolina Maria de Jesus não foi uma "fashionista" no sentido tradicional como é visto atualmente, mas sua capacidade de criar estilo próprio com o que tinha disponível a torna um símbolo potente de moda resistente. 

Para mais informações sobre Carolina - Quarto de Despejo:

Gabriela Murad gabriela.murad@atomicalab.com.br | +55 21 99964-4521

Claudia Rodrigues claudia.rodrigues@atomicalab.com.br | +55 21 99221-2234

 

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Gabriela Murad
gabriela.murad@atomicalab.com.br
(21) 3149-4149


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